Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo statholder até posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.

D. João de Austria nos Paizes Baixos.—A Pacificação de Ghent alarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos na qualidade de statholder com plenos poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do Edictum Perpetuum, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e o statholder sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.

Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.—Alexandre Farnese, principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.

O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua determinação de permanecerem livres.

O Tratado de Utrecht.—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a quem assassinasse o principe.

Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era disputada pela Inglaterra.

A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.—Durante os annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.

A Confissão Hollandeza.—N’uma epoca relativamente afastada, isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar pela Escriptura a religião reformada.

Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebre Confessio Gallica.

Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os Institutos de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se a si proprios».