Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.

A Escocia e Huss.—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira, e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se suspeitava.

A Egreja romana na Escocia o a situação politica.—A Egreja romana na Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,» diz João Row, «havia alguns livros, taes como Sir David Lindsay, e as suas poesias ácerca das Quatro Monarquias, que trata tambem de muitos outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os Psalmos de Wedderburn e as Balladas de Godlie, em que se alteram para fins piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma Queixa feita pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados, padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas, comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico; a Satyra de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S. Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito benefico n’aquella ocasião.

As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco, apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições, e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.

Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então, é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se preparasse para Knox e para os lords da Congregação.

Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França. A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu, ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza; e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia, e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.

Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua admiravel obra de reformador.

O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez, e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de 1560.

João Knox, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em 1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542, tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi consultado ácerca da revisão dos Artigos da Religião, e suggeriu a celebre declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão, que ficou inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.