As perseguições no reinado de Maria.—Os protestantes que existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.

A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.

E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.

Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com satisfação.

As terras da Egreja.—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?

O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.

O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.—Os theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.

O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.