A morte de Maria.—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo dezeseis.


CAPITULO III
A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL

A successão de Isabel, [pag. 189].—Como se liquidou a questão religiosa, [pag. 190].—Os trinta e nove artigos, [pag. 197].—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, [pag. 192].—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, [pag. 194].—A lucta interna com o catholicismo romano, [pag. 195].—A Armada hespanhola, [pag. 196].—As prophecias, [pag. 197].—Os conventiculos, [pag. 198].—Os pamphletos anti-prelaticios, [pag. 198].—A Reforma ingleza, [pag. 198].

A sucessão de Isabel.—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.

A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.

A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.

Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real, posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» (Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação d’elles, adoptada.

A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e fazer-se egualmente protestante.