Como se liquidou a questão religiosa.—Isabel não era, de maneira nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.
Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu caminho.
Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.
O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.
Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.
Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.
Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base catholica romana.
Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada Os Onze Artigos. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».
Os trinta e nove artigos.—Este curto formulario de doutrinas foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos Quarenta e dois Artigos de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.
O puritanismo e as vestimentas clericaes.—A rainha não gostava dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.