Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.
Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado protestante.
Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.
Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
Os bispos prepararam os Os trinta e nove Artigos, que o bispo Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra e Canterbury.
Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.