| [I] | —Os Principios da Reforma. |
| [II] | —Como a Reforma se poz em contacto com a politica. |
| [III] | —A catholicidade dos reformadores. |
| [IV] | —Os principios doutrinarios. |
CAPITULO I
OS PRINCIPIOS DA REFORMA
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes, [pag. 205].—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus, [pag. 206].—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, [pag. 208].—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, [pag. 209].—A imitação de Christo, [pag. 209].—Francisco de Assis, [pag. 210].—Os mysticos da Edade Media, [pag. 211].—A significação do perdão, segundo a Reforma, [pag. 212].—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma, [pag. 213].
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes.—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em que a Reforma appareceu.
A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha um caminho especial a percorrer.
O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.