Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.

Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser agitadas por elles.

Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e tirou d’ellas mesmas a sua força.

Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.—O que mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença divina.

Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que Deus dá gratuitamente.

Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima de S. João, beneficiando o proximo.

A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para acabar de encher os seus cofres.

A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e obstaculos.

Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.—É natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma idéa geral do que se passou.

«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.