A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um homem era chamado santo se pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia ao outro; um frade era um homem santo, um guarda do imperador era um homem secular. Um campo era santo se um papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.
Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de Christo.—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
Francisco de Assis.—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a da imitação de Christo; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e individual separação do mundo, muito differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos de Christo.»
Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza, castidade e obediencia.
O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais genuina imitação de Christo.
Os Mysticos medievaes.—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
A significação do perdão, segundo a Reforma.—Todos estes movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.