Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a Reforma effectuou.
Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.—Sendo este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora que Elle revelou em Christo.
CAPITULO II
COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca, [pag. 215].—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade politica, [pag. 216].—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma, [pag. 217].—O De Monarchia de Dante e o Defensor Pacis de Marcello de Padua, [pag. 218].
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca.—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.