Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade de povos.

A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de Marcello de Padua.—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.

Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e das nações europeas, escreveu a sua De Monarchia para mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este livro é o epitaphio do medievalismo.

Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o seu livro, o Defensor Pacis, que explicava como a verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da actualidade.

Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para dentro.


CAPITULO III
A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES

Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, [pag. 221].—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval, [pag. 221].—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino, [pag. 222].—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, [pag. 223].