Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.—Nenhum dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus desde a infancia.

Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até aos seus dias.

A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?

Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do Imperio medieval.—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos privilegios da Egreja.

Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.

O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava no Imperio Romano.

Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.

A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.—O imperio medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»

Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar. Intitulou-o Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da escravidão.

A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.