Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus Institutos diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel, introduzidas.

A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.—Os cabeças da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.

Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.

Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario, communhão com os santos. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.


CAPITULO IV
OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA

Os principios formaes e materiaes da Reforma, [pag. 225].—O sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma, [pag. 226].—Explica a Doutrina da Escriptura, [pag. 227], e da Justificação pela Fé, [pag. 228].—A Doutrina da Escriptura da Reforma em contraste com a medieval, [pag. 228].—A Doutrina medieval da Escriptura, [pag. 229].—O quadruplo sentido da Escriptura, [pag. 229].—A definição medieval de fé salvadora. Interpretação infallivel, [pag. 230].—Os reformadores e a Biblia, [pag. 231].—A doutrina da justificação pela fé da Reforma em contraste com a medieval, [pag. 232].—A absolvição clerical e justificação pela fé, [pag. 233].—Justificação pela fé e justificação pelas obras, [pag. 234].—Conclusão, [pag. 235].

Os principios formaes e materiaes da Reforma.—Os principios theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos formaes e a outra pelos materiaes.

O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o movimento reformista com muita clareza e energia na sua Historia da Theologia Protestante. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de Deus é o principio formal da theologia da Reforma, e a doutrina da Justificação pela Fé é o principio material da mesma.