O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo. Aquillo a que se tem chamado os principios, formaes e materiaes, da Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no sacerdocio de todos os crentes—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes, todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em santidade.

O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.—Quando Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava, mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados. Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle, insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados, dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas, o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.

Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão, por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.» Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença de Deus por determinação de quaesquer outros homens.

Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.

O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada da Escriptura.—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações, inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.

O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a doutrina reformada da justificação pela fé.—A doutrina da justificação pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento. Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de Deus.

A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.—A doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas, pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é a religião dos protestantes.

Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo, portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina reformada da Escriptura.