A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A summula da theologia, que todo o circulo da doutrina christã se apoia na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa; é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra de Deus.
A doutrina medieval da Escriptura.—Os theologos medievaes faziam, comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais nada.
Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis, mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus; podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o Seu povo de que a Biblia faz menção.
O quadruplo sentido da Escriptura.—Esta noção medieval ácerca da Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes. Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido historico da passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O allegorico, o moral e o anagogico. Estes varios sentidos differiam do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor fez de Capernaum a Naim.
É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome n’um sentido mystico, ou allegorico.
Definição medieval da fé salvadora. A interpretação infallivel.—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia, e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.
É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento, o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu. As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.
Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação entre o crente e a Biblia.
Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o arbitro supremo em todas as controversias.