Os reformadores e a Biblia.—Deram á Biblia a significação que ella realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal, que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar. A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo, promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil; pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.
Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa. A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se lhes dirigia por meio da Biblia.
Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.
A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e ouvirem as Suas palavras de conforto.
A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.—O segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na Palavra de Deus, á Sua presença.
Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos distinctos pelos dois disputantes.
Para os theologos medievaes, justificar significa tornar justo; para os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto forense. Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.
O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o perdão dos peccados.
A absolvição clerical e a justificação pela fé.—Segundo a theologia da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.
Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias, e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem, munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo.