Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu perdão.

Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão, e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas deante do confissionario.

Justificação pela fé e justificação pelas obras.—Segundo a theoria medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados, mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é possivel a absolvição, quer dizer, o perdão.

A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos, taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da confissão e da contricção.

Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus, revelada em Christo.

Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.

Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de justificação pelas obras implicaria.

A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de praticas mecanicas.

Conclusão.—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião, tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados, dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem; e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes.