—Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, tim tim, por tim tim?
—Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.
—Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a mão esquerda.
—Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer fazer banzê, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar as palhinhas por elle.
—Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o partido do moço da cavallariça.
—Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de vacca que fica sem saber da cara por tres dias.
N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que mandava chamar o mordomo.
—Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no escriptorio.
—Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta. Comprehendes?
—Perfeitamente.