—Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne a encher?...

—Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.

—E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu proprio trem buscar a filha de Jeronymo.

—E ella porta-se bem?

—Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre como é, andar no luxo em que anda!

—Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no coração.

—Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não lhe deviam cortar na pelle.

—E quem é que lhe corta na pelle?

—Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas ausencias: a tia Monica.

N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.