—Pois veremos quem vence—se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.

Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.

A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o ensejo lhe fosse favoravel.

A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou na sua constante operação.

Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.

Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para ella lhe fugia!

—Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.

—Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se para mim.

—Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.

—Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã, quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.