—Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.

—Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?

—Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel, promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu guarda-portão um fardamento novo!

—Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs, que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil para o futuro!

—Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á filha.

—Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.

—Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente caridade.

—Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que essa creança te consagra?

—Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é este, apenas este.

—Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois de alguns instantes de profunda reflexão.