—Dou-te a minha palavra de honra que tenho.
O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.
Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente, attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.
Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão, Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente guardava no fundo da sua alma.
Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava falando a serio.
—Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa, cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora, accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas, antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?
—Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em menos de um mez, Olympia será tua mulher.
Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.