Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam indicado.
Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que de manhã fôra pizado por um brazileiro.
—E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por todos quatro.
—É possivel falar lhe?
—É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o guarda portão. Ainda não tornou a si.
—Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.
Minutos depois entrava no quarto do ferido.
Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.
Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida pelo terror.
Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.