Passárão da innocencia
Pela candida estrada os pés levando;
Inda a fera violencia
Não corrompia da Justiça o mando;
Praticava-se a próvida igualdade
Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.
A pura fé do Amigo,
Renovava de Orestes a memoria:
Commum era o perigo,
Reciproca tambem a pena, a gloria:
Que traições, e que enganos tem disposto
Em nossos dias hum fingido rosto!
Tudo se vê mudado
Nesta idade fatal em que de ferro
O Idolo adorado
Torpemente protege o crime, o erro:
Como de susto, e de vergonha cheia
Se retira de nós a bella Astrea!
Ah! E quem de teus laços
Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
Rotos em mil pedaços
Os teus grilhões a pendurar já chego;
Não mais os teus encantos me deleitem,
Estes miseros restos se aproveitem.
Que differentes climas
Já me finjo habitar! Os brandos ares,
Que tu Zefiro, animas
Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
Das magoas, do desgosto, e do tormento
Aqui não sôa o tragico lamento.
Sôlto do mortal manto
Cuido que o centro dos Elysios piso!
Oh quanto he bella, quanto
A margem deste Lago! Em fresco riso
Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
Aqui saudão a perpetua Aurora.
Adoravel sciencia,
Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
Da humana intelligencia,
Agora sei quam longe te desvias!
Este o seio da luz, aonde tudo
Sem fadiga se alcança, e sem estudo!
O número, a distancia
Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
Noto a eterna constancia
Do Planeta da Luz; observo o giro
Da Terra, que regula a varia face
Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.
Certa, e firme a carreira
Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
Da esfera derradeira
Contemplo a força, que os mais Orbes move;
A harmonia me encanta acorde, e rara,
Que de Samos o Sabio já notára.
Aqui se patentêa
Dos errados systemas o conceito;
E longe a minha idéa
De vacilar, já firma o mais perfeito.
Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
Libertar me podéra deste engano!