Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde. Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio. Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos que apanharam chuva.

Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos em um estreito pateo interior, na sombra—porque tambem ali não chegava o sol—frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos—como um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos, anemicos, tristes.

Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada. As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão, coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que passavam os domingos.


Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho, extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes ensina.

Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina moral.

Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.

Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um capellão, um perceptor.

Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a benzerem-se.»