O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe prohibe ser o que é.
Espera-se resposta.
A Republica Portugueza, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e dirige-nos as seguintes textuaes perguntas:
1.ª «A redacção das Farpas quer a resolução do problema economico, quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica é insufficiente para garantir o direito?»
2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois seculos?»
Temos a honra de responder á Republica Portugueza:
1.º Aquillo que a Republica Portugueza chama a formula politica não é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras, no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o. Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na Revolução, está apenas na inepcia.
2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a Republica Portugueza quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a Republica Portugueza não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos: