Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um fauteuil, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve dissertação sobre os novissimos do homem?»
Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
—«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»
Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e não os discutis.
No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis no racionalismo heretico.
No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e prostrar-vos na penitencia e na oração.
Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos bons.
Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, passando, esta palavra séria:
Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade é uma religião.