Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como cidadão, olho-vos como simples espectador, como dilettante. De todos os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.
Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e os senhores liberaes tambem se não retiram.
Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a Palavra mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um Te Deum na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. 4.ª cap. IV De infallibilitate romani pontificis magni, a qual constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do Porto!
Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas aos seus adeptos.
Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade e sobresaltar o paiz.
É singular esta coincidencia:
O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.
Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja catholica—quem o diria!—appella para as garantias espirituaes e quer a distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade como o extremo refugio das consciencias apavoradas.
Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr—o grito das garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção dos poderes.