Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a egreja catholica como um perigo para a liberdade!

No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos periodicos liberaes—no que nos parece que confundis tambem um pouco a religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos. Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida. Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã. Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu á mecanica e Lavoisier á chimica.