Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação com a profundidade da sua critica, comprehendera—e muito bem!—que a questão ali já não era de fazer correr, mas de fazer parar.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem, recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem chegado todos a terra—pelo avesso.


Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado jurisconsulto e procurador geral da corôa.


É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições especiaes de um aio junto de um principe. Todavia—debalde procurariamos escondel-o—em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em que condições, em que circumstancias, em que especial momento da preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do Diario de Noticias. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de sua alteza.

E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.