A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se deva considerar nos reaes paços como um acepipe hors d'oeuvre ou como um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:
«Está o lunch na mesa: ha galantine, rabanetes e o sr. Martens Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr. Martens Ferrão de engonsos.»
Se porém—e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e complicada navegação da vida.
Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a sua vida en nourrice em casa do Direito Publico.
Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é elle! E quando dizemos elle, commettemos uma incerteza de concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer elle, diga—ella. Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto simplesmente el, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula neutra.
Como diziamos, pois, tal é—el.
Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens Ferrão para aio do principe real—note-se bem isto—não é a sorte de sua alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não! É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a influencia de um tal companheiro. Por elle podemos estar perfeitamente socegados. Mas el? o que será d'el, el tão puro ou pura, tão candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza inexperiente e inerme d'el! ...