Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;—o que se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém não são ainda para el os unicos perigos. Não é licito esconder que ha outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama—a mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos! Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei geral da humanidade, e os que vivem com elles—ponderemol-o bem—ficam sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito tempo correra o mundo para enganar as damas. Tal é a raça de que elles sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o medite!

De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos boudoirs de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios possam preservar os principes dos perigos das suas ligações clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na propria convivencia legal das mulheres legitimas!

Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do seculo passado, começava então a tomar o gosto ao champagne. O rei resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven rei, em vez de começar a tomar o gosto ao champagne juntamente com o seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e antigo soupeur, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.