P.J. PROUDHON
SUMMARIO
Regresso. Explicações—Historia de uns pés—Modos de morrer. Os Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova—Epistola aos [catholicos do Porto]. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni, Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O confissionario. As academias da [rua da Picaria]. A mulher christã. O partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo do sr. [Bismark]. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na politica, na sciencia, na religião. A [tolerancia]—Festa veneziana nas aguas de [Caparica]—O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr. [Martens Ferrão]. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados, as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A regencia. O beijo de [Maria Laczinska]. A bengala de [Constancia de Arbes]—As senhoras hispanholas e os faqueiros—O santo padre, o imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O [conde de Chambord] e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia philosophica dos pontapés nas monarchias modernas—Perfil do sr. D. Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia, o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é anemico—O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica—O [drama do Mexilhoeiro]—A falta do [elemento feminino] nos banquetes patrioticos.
Leitor querido—Depois de uma longa abstenção de tres mezes—os mezes do verão—As Farpas voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a que recomeçam a servir-se tambem as ostras.
Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada. Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro. Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em Pedroiços, por exemplo, a vida—toda de porta da rua—é transparente: vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da recreio, com os seus amigos, comer um safio!