Não foram essas porém as rasões porque As Farpas se callaram durante a estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente recemnascido para a trincadeira nacional.
O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos. Cada um dá o que tem.
A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil como a veloutine de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, profundamente—como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as ophtalmias e as esquinencias—as duas maiores enfermidades de Lisboa. Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.
De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr. conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.
De modo que a antiga expressão «terra da patria», com referencia a Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de «terra! terra!» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de Melicio!»—ou—«Nitreira de Soares!»
Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos prudente substituir—como fizemos—a convivencia do publico pela do gargarejo.
No theatro de D. Maria, o drama—Idiota.
Suppoz-se pelos annuncios que Idiota seria uma peça sem nome do auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.
No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr. Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado—nas caixas das rebecas.