Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e um gibão roto nos cotovellos!
Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um entrechat cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte, até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz—que ficava com elle.
Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de baixo.
Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?
A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham. N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que é? Pois bem! É a benzina!
A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o authentico manifesto politico de um principe proscripto.
Sua alteza declara ao seu paiz que quer ser o protector e o amigo de todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua maior gloria—restaurar o throno pontificio. N'este simples traço encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,—o que nos parece de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.
Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio da nossa raça! Que degeneração!
O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha profundamente inclinada do sport lusitano de 1827. Nas redondezas do paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador, o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde, a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.