O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o partido liberal portuguez.

Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr. D. Miguel. Elles não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, primeiro, foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, segundo, figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes concentravam-se.

Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!


Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. Intitula-se—Portugal e o socialismo, e é escripto pelo sr. Oliveira Martins.

A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:—o bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos, não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas inteiramente fóra do seu objecto—a simples e pura verdade humana.

O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade, a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da politica da sociedade moderna?