Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da sr.ª D. Guiomar Torresão no Almanack das Senhoras?

Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema representativo?

Não nos parece.

O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas, não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.


É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, tão viva, tão humana:

«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza da fabrica—manufactura de algodão e de pobres—não pode servir-nos. O não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, se funde a feria?

A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na fabrica ...»