A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que, pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.
Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira medica.
A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.
Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se dignarão responder-nos.