O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do presente inverno com um jantar prié.
Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr. marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. É preciso que concorram tambem as senhoras, com a toilette, com a fina pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação finalmente, com a idealidade, com o espirito.
Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres—ellas que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no tedio—desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações, as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas sobre um ramo de rosas.
Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram palitos nos dedos—o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo do gosto.
Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, lhe pedira a palavra.
Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia.