Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes catholica a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da rua da Picaria? Que significa uma associação chamada catholica no meio de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é catholico em Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso—catholica? Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de religiões?...

Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da sciencia?...

Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho. A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande meeting liberal, começava no emtanto—por festejar o S. João!

Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, então—meditae-o—achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, de presumpção de merecimentos.

Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!