Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o boi mudo de Sicilia, o Aristoteles do christianismo—como lhe chamou Michelet—, o mais poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado apenas:—como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro patriotas á porta da Sé; como arte, a Palavra, um pobre jornal piegas, lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a Bemaventurança e nos fecha o ceu—n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

I promessi Sposi, o celebre romance tão conhecido, foi como o Genio do Christianismo, de Chateaubriand e como as odes religiosas de Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros adoraveis,—e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil ideal do padre Borromeu nos Promessi Sposi não tinha pois a intenção de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso escriptor.