Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...

Emquanto a nós o que a Nação tem é o espirito maligno no corpo do jornal! Cruzes, demonio!


Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas todos?


Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a esta—o fadista.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e adormecidos.

Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo, em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da vadiice, e tomou então o nome de—fadista.

O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma guitarra e de um santo christo, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular—as escovinhas. Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vae comer o prado de desfeita, acepipe composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados, que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fóra; o cachucho da amante reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.

De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a todos os machos.