Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito, cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o enterro do bacalhau, como se predizia: foi apenas o enterro da monarchia.
Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para cohesão social do espirito portuguez.
Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma poesia eterna.
A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes cidadãos nas crises de decadencia nacional,—um estimulo supremo de energia e de revivescencia patriotica.
Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.
Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e cobarde.
Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte pbrase:
A camara aguarda as determinações do governo. Este eloquente e arrojado tribuno do povo fallou bem. Multa in paucis. Toda a philosophia da representação nacional portugueza no presente momento historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:—«A camara aguarda as determinações do governo.»
A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.