O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do quadrado,—com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o trambolho de chumbo que os afunde.

As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

O historiador snr Henri Marlin pergunta:

«O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e da verdade.»

O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a rectidão, foi a franqueza, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na egreja se chama religião e que na sociedade se chama a justiça.

A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez, incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de Carvalho—feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de cacete e uma espessura de baluarte—fez de Portugal á força de leis e de sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.