O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a casca.
Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de batina e a ovos molles.
O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente, escorraçava-o e perseguia-o,—que é sempre assim que os reis pagam aos plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo, a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»
O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes, produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme—a obediencia geral.
Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.
Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar este personagem sem ideias nenhumas.
Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um contemporaneo do marquez de Pombal—o que aliás a chronologia parece demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel—nós permittir-nos-hemos contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D. José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com que nos governou o marquez de Pombal.
Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: La cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de constítution. Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o pacto constitucional.
Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou pela Mesa Sensoria: Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis.
A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade, creando as municipalidades, separando a egreja do estado, decretando a liberdade da terra, (1773), a liberdade, da industria e do commercio(1776), a liberdade da razão (1777).