Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa, Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que governos como o de Pombal lhe opposeram.

Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa: que a politica d'um, fundando-se no poder absoluto dos reis, atrasava para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na natureza do homem, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso moral da humanidade.

Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés d'elle, e disse-lhe: Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou a salvação do povo.

A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet, envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade ingenita.


Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no devido ponto de vista. Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar, terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em que é necessario que a gente se colloque.

Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira, em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo charlatanismo dos seus tyrannos.

O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França deveu a honra de poder cear algumas vezes em petit comité com alguns dos homens de espirito que escreveram a Encyclopedia. D. José nunca exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres ainda de talento que de pudor.