«Y hize que de un discurso
Se visse principio y cabo,
Lo que el musico no haze,
Pues medio desbarado{[xl]}
Dexa un romance perdido
Deciendo que le da enfado:
Los quales conforme à la ley
Merecen ser desterrados
A las islas de Corfú
A cantar versos mosaycos
Y de tan alto auditorio
Uvieran de ser echados
Por quebrantadores de honras
De aquellos siglos dorados.»
Na citação de Dom Francisco Manoel de Mello está resumida a historia do romance; confirma-o Pedro de Flores. O Fidalgo Aprendiz é uma formosa comedia de costumes, pelo gosto da velha eschola de Gil Vicente; é uma satyra aos parvenus do seculo XVII. Eis o caso: Dom Gil Cogominho é o nome de
um escudeiro
Enfronhado em Cavalleiro
Morto por ser namorado,
Contrabaxo e trovador
Cavalleiro, dançador:
Emfim Fidalgo acabado,
Valentão e caçador.[53]
Affonso Mendes, seu ayo, vestido á portugueza antiga, tem uma comadre:
Mulher para muita aquella,
Anda armando-lhe esparrella
Com uma filha bonitinha,
Que eu fico que caia nella.
É pois n'uma d'estas situações, quando Dom Gil Cogominho vae conversar de noite com Brites, filha da tal comadre Isabel, que se passa a scena que transcrevêmos. Brites pergunta-lhe se elle é poeta, se canta, que voz tem? Depois pede-lhe que cante qualquer cousa. O Fidalgo escusa-se{[xlj]} por não ter guitarra. N'este tempo os romances, que iam tomando forma culta, eram sempre cantados a instrumento. Muitos dos romances populares do seculo XVI, já então considerados velhos, foram postos em musica e publicados por Milan, Pisador, Valderrabano, Fuenllana, Mudarra e Salinas. A Dom João III, em 1535, offereceu Luiz de Milan um Libro de Musica, em que vinham notados em musica: Mis arreos son las armas etc., Sospiraste etc. e Baldovinos.
Jorge Ferreira, nos romances que traz no Memorial das Proezas dos Cavalleiros da Tavola Redonda, accrescenta sempre a rubrica: «Cantavam a violas de arco e doçayna mui concertadamente o romance, que eram os cantos que então mais se usavam.»[54] Isto era assim ainda no tempo de Dom Sebastião, porque o Fidalgo dá-se como contemporaneo do monarcha:
Sey o açougue no Rocio,
Os Estaus na Inquisição,
Vi el-Rey Dom Sebastião.
Dom Gil Cogominho a final, a instancias de Brites, venceu a repugnancia e começa a cantar o velho e popularissimo romance da Dona Silvana, que a rapariga já não quer ouvir, talvez para mostrar que não é de baixa extração. Pede-lhe porém que cante letra castelhana. De facto, depois do casamento de el-rei Dom Manoel com a filha de Fernando e Isabel, o romance popular começou a cantar-se em hespanhol. Gil Vicente compoz os seus mais bellos n'essa lingua. Damião de Goes queixa-se da importancia que tinham na corte os{[xlij]} chocarreiros de Castella;[55] e Jorge Ferreira diz que as trovas castelhanas se tem aforado comnosco e tomado posse do nosso ouvido.[56] O gosto dos romances na corte era uma imitação dos usos hespanhoes, do que diz o citado Jorge Ferreira, fallando dos romances: « o que em Hespanha se usou muito, e usar-se agora para estimulo de imitação não fora máo.»[57] Continuemos na exposição da comedia: Brites era quesilenta e recusa-se a ouvir o romance de Sylvana, a que o Fidalgo chama cantar algaravia. Pede letra castellana, e Cogominho começa-lhe a cantar o vetustissimo romance da Infantina, que começa:
A caçar vá el cavallero.[58]