Ya passó Dona Ximena,
Y fallecio Lain Calvo.[65]

E do velho romance do Conde Claros diz:

El Conde Claros, que fue
Titulo de las guitarras
Se quedó en las barberias
Com chaconas de la galla.[66]

O velho romance do Conde Claros, recolhido da tradição para o Cancionero de Anvers, estava já banido; uma transformação profunda se operava no gosto publico. Os romances mouriscos occupavam a attenção e o enthuziasmo. «O espirito da moda influiu muito na voga que tiveram, e na cansada monotonia que impoz a muitos a necessidade de os repetir para accomodar-se ao gosto publico e fastio da epoca.»[67] Fernando Wolf é de opinião que estes romances não têm o caracter arabe, e o{[xlvj]} proprio assumpto que celebram revela a sua origem moderna. Mas é impossivel desconhecer a existencia de uma poesia da raça mosarabe, producto da fusão do baixo povo godo com os arabes invasores. Assim como hoje se vê que d'esta transformação social saíu um direito novo, os Foraes,[68] longo tempo atribuidos a origem romana, qual seria a poesia d'essas relações intimas, cantada na lingua, que o baixo povo chamava de Aravias? Sobre esta poesia pesou o mesmo desprezo, que o Marquez de Santillana descarregou sobre os velhos romances vulgares; mas no Cancionero generale de Hernando de Castillo se descobre um apagado vestigio do romance mosarabe, em que se vê o retrato da coexistencia dos dois povos: é o romance da Mora Moraina, a cuja porta vêm um christão falar-lhe algaravias, para a enganar. Este romance ainda se encontra na tradição oral dos Açores e Beira, transformado segundo os usos da sociedade moderna.[69] O povo arabe teve uma poesia vulgar, sem o tom lyrico e artificial dos poetas cultos. O Arcipreste de Hita fala dos «instrumentos en que convienen los cantares de arabico, e cita um velho cantar que principia: Caguil hallaco. Diz mais: arabigo no quiere biuela d'arco.[70] Argote y de Molina, o mais atilado critico dos velhos escriptores hespanhoes, como o qualifica Ticknor, fala das zambras arabes, com que se celebravam os feitos publicos.[71] N'este periodo o romance mosarabe é commum a Portugal e Hespanha; a sua vulgarisação, segundo Duran, data do seculo XIV.

Porém quando os arabes começam a abandonar{[xlvij]} o territorio da Peninsula, as saudades d'este paiz encantador e a vergonha da derrota inspira-lhes os cantares da despedida. N'este momento os chamados romances mouriscos, tem um nascimento espontaneo, sem artificio. Em 1575, Argote y de Molina fala d'esses «cantares lastimeros, que oimos cantar a los Moriscos del Reyno de Granada, sobre la perdida de su tierra a manera de endexas...» E cita o cantar:

Alhambra amorosa, lloran tus castillos
o Muley Vuabdeli, que se ven perdidos
dadme mi cavallo, y my blanca adarga
para pelear, y ganar la Alhambra.
Dadme mi cavallo, y mi adarga açul
para pelear, y librar mis hijos:
Guadix tiene mis hijos, Gibraltar mi muger
senora Mafalta, hezisteme perder
en Guadix mis hijos, y yo en Gibraltar
senora Mafalta, hezisteme errar.[72]

Além de muitos outros documentos que provam a existencia de uma poesia popular, entre os arabes da Hespanha, ainda modernamente se ouvem cantares allusivos a Cordova e Granada, repetidos pelo povo em Tanger, Tetuão, Arzilla e em outros pontos do norte da Africa.[73]

É da imitação d'estes cantares, que datam os romances granadinos dos poetas cultos. Depois da conquista de Granada, os arabes que acceitaram o jugo de Fernando e Isabel, continuaram os seus queixumes; aquelles cantos tinham um accento novo, um colorido exagerado, uma paixão de arrebatamento. Assim seduziram a imaginação dos poetas; alguns desses cantos chegaram a entrar na corrente da tradição oral, como este recolhido na Serrania de Ronda:{[xlviij]}

Por las puertas de Celinda
Galan se passea Zaide,
Aguardando que sáliera
Celindo para hablalle.[74]

O fervor dos romances mouriscos cultos data do fim seculo XVI a XVII; são como uma recordação gloriosa dos triumphos dos filhos de Hespanha; já não tem a quem combater, criam phantasmas na imaginação, com que se distraem. É esta a opinião do sabio Duran, quando diz: «Logo que os nossos cavalleiros e poetas viram o paiz livre de seus contrarios para de logo se apoderaram das recordações que tinham deixado, de modo que ao ler os cantos d'aquelle tempo todos creriam que os mouros ainda occupavam a Hespanha.»—«De facto antes da conquista de Granada, e talvez alguns annos depois, se acham poucos romances mouriscos novellescos, que tenham vestigios sensiveis da poesia arabe.»[75] Os romances mouriscos tem poucas referencias a personagens historicos; umas vezes é um mouro, Galvan, que tem uma cativa christan, Mariana, com quem está jogando no seu jardim, e a cada jogo que perde, perde um castello ou cidade; o mouro Bucar resolve questões de amor; as aventuras e odios dos Zegries e Abencerrages, dos Gomeles e dos Aliatares, são o thema constante, bordado pela imaginação hespanhola. Cada personagem ideal forma um cyclo de aventuras, como Zaide, Abenumeya, Tarfe, Abindarraez, Zegri, Zulema, Azargue, Arbolan, e isto milhões de vezes romanceado até ao fastio e em formas já convencionaes, como a do verso: