Mira Zaide que te aviso.{[xlix]}

Por seu turno veiu a reacção contra o gosto dos romances mouriscos; começou-se por parodias burlescas. No Romancero general de Flores, já apparecem algumas amargas censuras contra a mania dos nomes mouriscos:

Tanta Zaida y Adalifa,
Tanta Draguta e Daraja,
Tanto Azarque e tanto Adulce,
Tanto Gazul e Abenámar.
......................
Renegaron de su ley
Los romancistas de España
Y offerecieron a Mahoma
Las primicias de sus gracias.
Dejaron los graves hechos
De su vencedora patria,
Y mendigan de la agena
Invenciones e patrañas.
Los Ordoños, los Bermudos
Las Rasuras y Mudarras,
Los Alfonsos, los Euricos,
Los Sanchos y los de Lara,
Que es de ellos? y que es del Cid?
Tanto olvido á gloria tanta.

Gongora tambem fez romances mouriscos, principalmente do cyclo turquesco, mas de um gosto bello e admiravel; cedo veiu a conhecer o enfado que já causavam os poetas granadinos, e elle proprio os ridicularisou em um romance. Os romances d'este genero, compostos por Dom Francisco Manoel de Mello e por Francisco Rodrigues Lobo, não appresentam o minimo merecimento; são em hespanhol, em um estylo cansado, e sem o esplendor da paixão oriental que os poetas hespanhoes imprimiram ás suas contrafações. Não vale apresentar especimen de composições taes; apenas servem para mostrar que o contagio litterario tambem chegou até Portugal. Do meado do seculo XVII por diante, os romances mouriscos perderam-se em um subjectivismo e requinte que lhes tirou o caracter. Foi então quando os romances{[l]} se tornaram pastorís, sendo os heroes arabes substituidos pelos Belardos, Filis, e pelas aventuras dos rufiões dos beccos, ou xaques. A xacara era o nome dado aos romances que celebravam esses feitos dos meliantes; os nossos Fados populares podem-se considerar como restos das xacarandinas do seculo XVII, a que D. Francisco de Quevedo imprimiu uma forma litteraria.[76]

Do que fosse este genero de poesia, procura o commentador na propria palavra xacara: «Y si bien à la primera noticia, que de si prometen con el nombre, parece peligra la estimacion.» Da linguagem formada pela gentalha, vadios, rufiões, goliardos e maninellos, que se chama giria, e em hespanhol geringonça ou linguagem particular dos Ciganos, e jargon no francez, e tambem germania, se formou esta especie de poesia. Os mesmos vadios se chamam entre si xaques: «Pero como quiera que elo fuese, denominacion dieron infallible à las xacaras ò xacarandinas aquellos xaques mismos? y con legitima razon, pues de sus acontecimientos y penalidades continuas son annales las relaciones que ali se repiten: y nuestro Poeta (Quevedo) historiador suyo, ò verdadero, ò fingido, singularmente de adequado spiritu.»[77] Á vista d'esta simples noticia e da leitura de Quevedo, é facil de ver em que a xacara consistia: eram as aventuras dos goliardos, a forma antiga do Fado, uma historia longa das suas falcatruas. Na xacara de Escarraman, ha cartas entre Escarraman e Mendez, cartas entre Peralta e Lampuga. D'onde veiu D. Francisco Manoel dizer: «Começaram um dialogo{[lj]} á maneira de xacara,» isto é, na linguagem girianta em que os xaques faziam as relações de seus desastres e aventuras divertidas, que era na xacarandina. A xacara, como quasi toda a poesia popular, era acompanhada de musica.

Do meiado do seculo XVI por diante começaram os romances populares a receber uma forma artistica, a tornarem-se descriptivos e lyricos. Fuentes, Timoneda, Sepulveda, Lasso de la Vega os foram tornando subjectivos. As xacaras populares receberam tambem de Quevedo esta mesma influencia artistica, que se resentiu em Portugal, por isso que o Index Expurgatorio de 1624 prohibe a leitura do romance de Escarraman, e de todos os que sobre elle se fizeram. Dom Francisco Manuel de Mello imitou o gosto das xacaras nos seus romances entretenidos. Alguem teve a ridicula lembrança de dar á xacara uma origem mourisca. Em que se fundariam para tal? Talvez no radical xaque, que quer dizer traidor. A xacara á força de exagerar o natural tornava-se grosseira; o metro seguia uma tendencia artificiosa que lhe tirava a vulgarisação popular.

Nos fins do seculo XVII a mania dos romances continuava; os frades escreviam-nos pelos mosteiros sobre assumptos pastorís; outros de longe em longe se lembravam do Cid e de Durandarte. Assim o diz um poeta coevo, Antonio Peixoto de Magalhães:

Algum sem que descanse
Faz ás barbas do «Cid» logo um romance,
Outro grave e queto
Compõe a «Durandate» algum soneto.

Em Hespanha o romance tinha perdido o caracter narrativo, absolutamente popular, tornando-se descriptivo ou litterario, até se fundir em{[lij]} um subjectivismo que o desnaturava. Em Portugal o povo continuou na sua obscuridade, como dantes, mas o romance seguiu exactamente as mesmas transformações que em Hespanha. Por este tempo Francisco Lopes, livreiro de Lisboa, romanceava, á imitação do Santo Isidro de Lope de Vega, a vida do popular Santo Antonio e dos Cinco Martyres de Marrocos; servia a causa da liberdade na revolução de 1640 com as suas folhas volantes em verso, popularisando as victorias contra as armas de Castella. Propriamente a designação de romance servia para qualquer composição fastienta feita a proposito de circumstancias ridiculas, em metro octosyllabo, em assonancias. O uso da lingua hespanhola era immoderado. Como composição d'este genero podem-se vêr os romances de Frei Antonio das Chagas, quando tinha no seculo o nome de Antonio da Fonseca Soares. Na vida ociosa dos claustros, os frades enchiam as suas horas com estas composições, mais insipidas do que as allegorias do paiz de Tendre. O Bispo do Grão Pará, nas suas Memorias verbera este costume. As glosas, que se haviam apoderado dos romances, começaram a applicar-se aos Outeiros freiraticos; nos palratorios se fazia o maior consummo dos romances. Quando Frei Antonio das Chagas entrou para os Bentos, aonde estava o seu amigo e confrade em Apollo Frei Antonio Vahia, foi achar lá dentro numerosas copias dos seus romances de galanterias; quando no enthuziasmo religioso as quiz rasgar, «gracejaram com elle e meteram-no á bulha.» O melhor do tempo passava-se em palestras com freiras, do que diz o severo Bispo do Grão Pará: «Eram moços, e muita a liberdade das grades d'aquelle miseravel tempo.» As subtilesas amorosas descambavam por vezes{[liij]} na obscenidade; o gosto do tempo não sabia discriminar os assumptos, e adequava a mesma linguagem aos usos divinos e humanos. Quando Frei João de Sam José fez a visita ao seu bispado, entrando pelo Aracá, em uma capella ouviu uma missa no fim da qual quatro indios e mamelucos com suas vozes bem ajustadas cantaram «varias cantatas devotas e de edificação, sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o lascivo das sarabandas e modas do tempo.» O Bispo do Grão Pará é uma especie de Saint-Simon do nosso seculo XVIII.

A poesia popular á medida que ía caíndo no gosto dos cultistas, emancipava-se de novo, pela falta de espontaneidade dos que a queriam imitar. Podemos dizer que a poesia popular portugueza ficou absolutamente desconhecida até á incompleta, mas brilhante tentativa de Garrett; em Hespanha os vendedores das folhas volantes, romanceando os successos do tempo, continuavam obscuramente o trabalho dos Najeras, dos Nucios, dos Flores, dos Tortejadas; entre nós o povo parecia mudo, sem canto. Que symptoma mais franco de decadencia! Quando os nossos poetas quizeram imitar o que na Allemanha faziam Uhland e Bürger, trovavando os seus poemas sobre as tradições nacionaes, mostraram-se a nú, mediocres e sem alma. É vêr essa infinidade de solaos, xacaras de accalentar netos, balladas, e outros prenuncios do ultra-romantismo em Portugal, que se cansou de andar a tombos com uma edade media de papelão. Para que ennumerar aqui nomes odiosos, de falsos sacerdotes da arte? A poesia do povo precisa de uma extraordinaria boa-fé para ser entendida.{[liv]}