GARCIA DE RESENDE
Trovas á maneira de romance feitas á morte de Dona Inez de Castro.
Eu era moça menina,
per nome dona Ynes
de Crasto, & de tal doutrina
& vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreves.
Uiuia, sem me lembrar
que paixam podia dar,
nem da-la ninguem a mym,
foy m'o prinçepe olhar
por seu nojo & minha fym.
Começou m'a desejar,
trabalhou por me seruir,
fortuna foy ordenar,
dous corações conformar
a huma vontade vyr.
Conheçeo-me, conheçi-o,
quys-me bem & eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o,
nunca tee morte foy frio
o bem que triste pus nele.
Dey-lhe minha liberdade,
nam senty perda de fama,
pus nele minha verdade,
quys fazer sua vontade
sendo muy fremosa dama.{[4]}
Por m'estas obras paguar
nunca ja mais quys casar,
polo qual aconsselhado
foy el rrey, qu'era forçado
polo seu de me matar.
Estaua muy acatada,
como princesa seruida,
em meus paços muy honrrada,
de tudo muy abastada,
de meu senhor muy querida.
Estando muy de vaguar,
bem fora de tal cuidar,
em Coymbra d'aseseguo,
polos campos de Mondeguo
caualeyros vy somar.
Como as cousas qu'am de ser,
loguo dam no coraçam,
começey entrestiçer
& comiguo soo dizer:
estes omẽes d'onde yram?
E tanto que preguntey,
soube logo que era el rrey,
quando o vy tam apressado,
foy, que nunca mays faley.
E quando vy que deçia,
sahy ha porta da sala,
deuinhando o que queria,
com gram choro & cortesya
lhe fiz huma triste fala.
Meus filhos pus derredor
de mym com gram omildade,
muy cortada de temor,
lhe disse: avey, senhor,
desta triste piadade.
Nam possa mais a paixam
que o que deueys fazer,{[5]}
metey nysso bem a mam:
que'e de fraco coraçam
sem porque matar molher.
Quando mays a mym, que dam
culpa, nam sendo rrezam,
por ser mãy dos ynoçentes
qu'ante vos estam presentes,
os quaes vossos netos sam.
E tem tam pouca ydade
que, se não forem criados
de mym, soo com saudade
& sua gram orfyndade
morreram desemparados.
Olhe bem quanta crueza
faraa nisto voss'alteza,
& tambem, senhor, olhay,
pois do prinçepe sois pay,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-uos o grand'amor
que me uosso filho tem,
e que sentiraa gram dor
morrer-lhe tal seruidor,
por lhe querer grande bem.
Que s'algum erro fizera,
fora bem que padeçera,
& qu'estes filhos ficaram
orfaãos tristes, & buscaram
quem d'eles paixam ouuera.
Mas poys eu nunca errey
& sempre mereçy mais,
deueys, poderoso rrey,
nam quebrantar vossa ley,
que, se moyro, quebrantays.
Usay mays de piadade
que de rrigor, nem vontade:
avey doo, senhor, de mym,{[6]}
nam me deys tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade.
El rrey, vendo como estaua,
ouue de mym compaixam
& vyo o, que nam oulhaua,
qu'eu a ele nam erraua,
nem fizera traiçam.
E vendo, quam de verdade
tive amor & lealdade
hoo prinçepe, cuja sam,
pode mais a piadade
que a determinaçam,
Que se n'ele defendera,
c'a sseu filho nam amasse
& lh'eu nam obedeçera,
entam com rrezam podera
dar-m'a moorte c'ordenasse.
Mas vendo que nenhum'ora,
desque naçy ategora,
nunca nisso me falou,
quando sse d'isto lembrou,
foy-se pola porta fora.
Com sseu rrosto lagrimoso,
c'o proposito mudado,
muyto triste, muy cuidoso,
como rrey muy piadoso,
muy Cristam & esforçado.
Hum daqueles que trazia
conssiguo na companhya,
caualeyro desalmado,
de tras d'ele, muy yrado,
estas palauras dezia:
Senhor vossa piadade
he dina de rreprender,
pois que sem necessidade
mudaram vossa vontade{[7]}
lagrimas d'uma molher.
E quereys c'abarreguado
com filhos, como casado,
estê senhor vosso filho;
de vos mais me marauilho
que d'ele, que'e namorado.
Se a loguo nam matais,
não sereis nunca temido,
nem faram o que mandays,
poys tam çedo vos mandays
do consselho qu'era avido.
Olhay, quam justa querela
tendes, pois por amor d'ela
vosso filho quer estar
sem casar, & nos quer dar
muyta guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muytas mortes, muytos danos,
vos, senhor, descanssareis,
& a vos & a nos dareis
paz para duzentos anos.
O prinçepe casaraa,
filhos de bençam teraa
seraa fora de pecado;
c'aguora seja anojado,
a menham lh'esqueeçeraa.
E ouuyndo seu dizer,
el rrey ficou muy toruado,
por se em tais estremos ver,
& que avya de fazer
ou hum ou outro, forçado.
Desejaua dar-me vida,
por lhe nam ter mereçida
a morte, nem nenhum mal:
sentya pena mortal
por ter feyto tal partida.{[8]}
E vendo que se lhe daua
a ele tod'esta culpa,
& que tanto o apertaua,
disse a aquele que bradaua:
mynha tençam me desculpa.
Se o vos quereis fazer,
fazey-o sem m'o dizer;
qu'eu nisso nam mando nada,
nem vejo ha essa coytada
porque deva de morrer,
Dous caualeyros yrosos,
que tais palauras lh'ouvyram,
muy crus & nam piadosos,
perverssos, desamorosos,
contra mym rrijo se vyram.
Com as espadas na mam
m'atrauessam o coraçam,
a confissam me tolheram:
este he o gualardam,
que meus amores me deram.
Cancioneiro Geral, t. III, p. 617.
FRANCISCO DE SOUSA
Trovas a este vilancete:
Abayx'este sserra
Verey minha terra.Oo montes erguidos!
Deyxay-vos cahyr,
deyxay-vos somyr
& ser destroydos.{[9]}
Poys males sentidos
me dam tanta guerra,
por vêr minha terra.
Ribeyras do mar!
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deyxay-as passar.
Deyxay-m'as tornar
dar nouas da terra,
que daa tanta guerra.
O ssol escureçe,
a noyte sse uem,
meus olhos, meu bem
ja nam aparece.
Mays çedo anoyteçe
aaquem d'esta sserra
que na minha terra.
Cancioneiro Geral, t. III, p. 562.